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O dia em que uma "anja" entrou em minha sala


O dia em que uma "anja" entrou em minha sala.

 

"Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam."
(A Hora da Estrela) Clarice Lispector.

          Ela Chorou como uma criança, sem qualquer receio em demonstrar seu descontentamento. Suas lágrimas não eram salgadas, mas sim amargas... Amargurada pela insípida vida a qual acreditava que o destino impunha-lhe injustamente. E a engolia “a seco” como ela bem descrevia, cheia de propriedade.

          Viúva, mãe de sete filhos; criava ainda quatro netos, em uma casa de dois cômodos, a qual não acomodava absolutamente nada e muito menos alguém. Começou a confessar-me que, nesse exato dia, em plena 10h da manhã, suas panelas ainda reluziam (de tão vazias), penduradas na parede.

              Na mesma fração de minutos em que se lamentava, também me tranqüilizou, pois se lembrara que dois netos eram flanelinhas. Estão aprendendo o “ofício” com o tio, que já é “profissional”, explicou-me. Deviam trazer  “algum” pra casa.

              Sem dúvida, uma mulher forte e frágil. Talvez, em uma das raras ocasiões, no alto de seus 76 anos de pura experiência, deixei-a dignamente dar-se ao direito de fraquejar. E enquanto eu sentia-me frágil e impotente, as lágrimas deslizavam pelo seu rosto de maneira firme e decidida. Então emudeci e as lágrimas falaram.

              De repente ela ergueu-se como uma fortaleza:

             - Não quero que ninguém me veja assim “corcunda”, olhando pra baixo. Vão dizer que tô ficando velha.

              E continuou, sem que eu conseguisse esboçar qualquer palavra:

             - A doutora tá certinha e se Deus quis assim é porque confia em mim.

              Abraçou-me e completou:

             - Vô indo. Lembrei que lá em casa tem um “restim” de feijão e farinha. Vou fazer pros “menorzinho”. Fique com Deus.

               E assim foi deixando a minha sala apressadamente. Saiu e puxou a porta atrás de si.

              Levantei e fui atrás para entregar-lhe os remédios que havia esquecido. Alcancei-a já na porta de saída. 

              Ela agradeceu-me novamente, beijou minha mão e disse:

              - Deus lhe abençoe. A senhora é uma “anja”.

         Fiquei olhando-a afastar-se. Virei-me para cumprimentar alguém que entrava e quando a procurei novamente, ela já havia sumido.

              Agora tenho certeza que anjos existem, e nesse dia uma “anja” entrou em minha sala.

São Luís (Ma), 28/01/2010

(Christiane Lima)



O conteúdo disponibilizado pelos colunistas não reflete necessariamente a opinião da ELO Internet

Christiane Lima

Christiane Lima

Assistente Social, Psicopedagoga e Especialista em Saúde da Família, formada pela Universidade Federal do Maranhão. Atualmente atuando na área de educação e há mais de 10 anos, trabalha na área de saúde junto a adolescentes e gestantes.

Contato para palestra clique aqui


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Comentários sobre O dia em que uma "anja" entrou em minha sala

Pedro Cavalcante

Comerciário - MA
É uma lição de vida sem mágoas, sem rancor, só sofrimento, mas um sofrimento conformado, que só a fez crescer.
 

Carmen Goulart

Dona de casa - MA
Tomara que os netos que estão aprendendo o oficio de "flanelinha" aprendam de verdade e que não decepcionem essa avó tão calejada pelas intempéries da vida.
 

Clarissa Costa

Bióloga - MA
Todas as vezes que me sentir "corcunda", olhando para baixo vou me lembrar dessa senhora e tenho certeza que terei um dia melhor.
 

Ana Furtado

Administradora - MA
Quando nos deparamos com histórias como essa é que sentimos o quanto nossos problemas são pequenos e insignificantes. Agora me sinto melhor.
 

Fátima Cunha

Esteticista - MA
Sempre que me deparo com situações assim fico indignada com os governantes, políticos, etc. milhares de brasileiros que como essa senhora só têm um "restim" de feijão e farinha para comer, mas que não se corrompem nunca, não perdem sua dignidade.
 

Clarissa Costa

Professora - MA
Sua história só demonstra quantas pessoas batalhadoras de coração imenso existem, quantas mães e avós dedicadas, sofredoras, mas que não se curvam nunca para que sua "corcunda nunca apareça e demonstre muitas vezes o seu peso. Parabéns pelo Artigo.
 

Marluce Lima

Empresária - MA
Certamente que anjos existem e só existem para provar que você é mesmo uma "anja", uma filha "anja" que Deus me deu de presente e também lhe presenteou com dois anjinhos lindos e maravilhosos, você que faz tanto bem a tanta gente.
 

Claudia

Enfermeira - MA
Deus coloca esses "ANJOS" na hora certa em nossos caminhos!!!
 

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