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"Tudo está permanentemente sujeito a revisão, pois cada sociedade inventa a sexualidade
que pode inventar"(J. F. Costa)
Sabemos que nossa sociedade está em constante mutação. À cada geração, estamos sempre nos adaptando à criação de novos termos ou redefinição dos antigos. Dessa forma, nossos adolescentes são concebidos nessa sociedade mutante, ou como diria Raul Seixas nessa “metamorfose ambulante”.
O namoro é uma fase importantíssima no processo de descobertas e maturidade do ser humano. No entanto, o que tem preocupado pais e educadores é que o namoro está alcançando patamares de comportamentos cada vez mais ousados entre os adolescentes. Não é raro ouvirmos destes, o comentário: “Eu fiquei com...”. Aliás, vale lembrar que, “ficar” passou a ser uma espécie de atestado de diversão de uma festa, de uma noitada etc. Será que ficar é mesmo uma novidade dessa geração? Arrisco-me a dizer que “não”. Na verdade, "ficar" já existe há muito tempo só que com outra conotação. Há décadas e décadas passadas os rapazes já escolhiam suas futuras esposas, distinguindo-as entre aquelas ditas de “família” (para casar) e as outras, digamos mais “fáceis” (para divertirem-se), ou seja, para ficar. No entanto, qualquer que seja a época, algo não muda: a percepção pejorativa, entre os próprios adolescentes, com relação aqueles (as) que “ficam” com mais freqüência, principalmente as meninas.Isso nos faz pensar que os jovens além de desvalorizarem a si mesmo, também banalizam os sentimentos, transformando-os em algo passageiro, volátil e sem compromisso com o dia seguinte. Esse fato nos leva a outras conseqüências agravantes, tais como: aumento do índice de gravidez na adolescência e proliferação de DST’s, já que agem por pura satisfação provisória num contexto mínimo de segurança.
É claro que esse tipo de comportamento do adolescente nos preocupa, ou melhor, nos incomoda e até nos perturba, por não sabermos muito bem como lidar com essa nova forma de compromisso “descompromissado”. É o mesmo que possuir sem ter. Seria isso? Como podemos entender o que se passa na cabeça desses jovens, sexualmente precoces e emocionalmente imaturos? Os quais se acham preparados para uma relação sexual e despreparados para envolverem-se emocionalmente? Infelizmente somos levados a concluir que, enquanto “ficam” e aprendem a explorar o corpo do outro, desaprendem a “sentir”. Sendo assim, o adolescente vai desenvolvendo-se de forma a valorizar as relações breves e instáveis, voltadas única e exclusivamente para a satisfação pessoal e imediata. Estas já nascem com prazo de validade para terminar e a sexualidade é encarada como uma espécie de mercadoria, onde o “ficante” é simplesmente descartado tão logo a cota de prazer seja atingida. E assim, quando tornam-se adultos percebem que tiveram muitas experiências mas nenhuma foi capaz de preencher seu vazio interior ou dar-lhe afeto, necessidade inerente ao ser humano. Em outras palavras, há uma grande contradição, pois se por um lado, há uma busca de liberdade e prazer; por outro, existem certos dilemas e conceitos familiares e culturais intransponíveis. É bom “ficar”, no entanto a inexistência de vínculos duradouros produz uma sensação de desamparo e insegurança.
Enquanto eu pesquisava fontes para escrever esse artigo, descobri uma pesquisa feita, pelo Instituto Guttmacher, nos EUA e na Europa1, a qual constatou que, para os jovens, sexo oral não é sexo (apenas 20% dos 477 estudantes universitários entrevistados, classificam sexo oral como sexo). Para eles, este é preliminar, é aquecimento, é ficar. Afinal de contas, “ficar”é um tipo de relacionamento ou uma espécie de mera degustação da outra pessoa? Então o que seria “transar”? acho que estou perdendo os parâmetros. Não é de estranhar que os limites do ficar andem perigosamente no fio da navalha. “Segundo dados do Ministério da Saúde e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), publicados no relatório Comportamento Sexual da População Brasileira, de 1999, quase um terço das garotas e praticamente a metade dos garotos já tinham experimentado uma relação sexual completa antes dos 15 anos. Dados do Ministério da Saúde também revelam que mais de 20% das garotas entre 13 e 19 anos já enfrentaram uma gravidez no país.” 2 Isso somente vem corroborar o que afirma IçamiTiba (1997), “os jovens “ficantes” raramente estão maduros para a vida sexual”.
A essas alturas eu imagino que milhares de pais têm a mesma dúvida em mente : Quais os limites a serem ensinados ao adolescente? O modelo antigo era melhor? os limites eram mais rigorosos? Seria muito bom se eu tivesse uma resposta pronta a essa pergunta. Hoje em dia, os caminhos são outros e os adolescentes têm cada vez mais autonomia para definir seus próprios limites.E se tudo continuar seguindo esse mesmo padrão do “emocional-descartável”, os limites tendem a ser empurrados sempre mais para frente, às margens do precipício. Se por um lado adotarmos um comportamento muito distante dessa realidade estaremos restringindo as possibilidades de diálogo dentro de casa. Afinal, os tempos mudaram, os limites sociais e culturais também. Por outro lado, énecessário muita cautela quanto decidimos nos adequar e aceitar nossos filhos “ficarem” deliberadamente.
Então estamos entre a cruz e a espada ? Eu diria que existe um limite “ético” nessa situação. Se não os educarmos eticamente, transformar-se-ão em adultos inescrupulosos cultivadores de prazeres momentâneos ao invés de vivenciarem a sexualidade de uma maneira saudável, compartilhando o afeto e o respeito mútuo. Isso é ensinado no contexto familiar, através de um diálogo franco, honesto e aberto (com o devido destaque para o uso da camisinha e dos métodos anticoncepcionais). Dessa forma, os adolescentes terão oportunidade de vivenciarem a tão desejada liberdade na hora certa, aprendendo que para assegurarem essa autonomia precisam antes conquistá-la e cuidar dela com responsabilidade e maturidade.
Como escreveu o poeta Drummond, amar se aprende amando.
REFERÊNCIAS :
1http://www.guttmacher.org/media/nr/2010/04/05/index.html (acessado em 29/03/2011)
2http://www.cebrap.org.br/v1/index.php?lang=pt (acessado em 29/03/2011)
CATONNÉ,J.F.-A Sexualidade ontem e hoje. 2ª. Ed. 120pág. Cortez.SP.2001
ZAGURY,Tânia – “O adolescente por ele mesmo”, Ed. Record
Tiba, I. (1997). Sexo e adolescência. São Paulo: Ática.
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Virginia Cabral
Universitária - MARealmente esses jovens "ficantes" não estão preparados para uma relação, nem afetiva, nem sexual, não gostam de usar camisinha, acham que atrapalha, tira o prazer. Meu Deus, quanta irresponsabilidade.