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Geralmente tenho postado aqui artigos sobre temas polêmicos ou relevantes para a sociedade como um todo.
Pois bem, essa semana resolvi “variar” um pouco e decidi compartilhar um dos meus escritos, na verdade como se fosse uma página de meu diário, pois já há algum tempo senti necessidade de escrever sobre fatos, pessoas, atendimentos que faço em meu local de trabalho.
Neste, poderão perceber uma linha tênue que separa meu olhar pessoal do profissional, pois confesso que, em determinadas situações estes se fundem e torna-se impossível separá-los.
Quero ressaltar que se trata de um fato real. Eu diria, mais um dentre tantos aprendizados diários que me enchem de paixão e orgulho pela minha profissão. Não me imagino fazendo outra coisa, senão esta.
Basta um olhar para percebermos que existem muitas coisas em nossa volta as quais podemos contribuir para mudar. Não, não resolveremos tudo, longe disso, mas de braços cruzados tampouco o faremos.
São Luís (Ma), 02/03/2010
Timidamente ela entrou em minha sala, sentou-se à minha frente e ficou retirando as lasquinhas de esmalte Pink que restavam nas unhas.
- Boa tarde, tudo bem ? (falei)
- Ela acenou com a cabeça em um gesto que não conseguí decifrar se significava “sim” ou “não”. E continuou com o olhar fixo nas unhas.
- Tudo bem ? qual seu nome ?
Silêncio absoluto.
Então ela começou a esfregar as mãos suadas na roupa.
- Estou aqui para tentar ajudá-la ? aceita uma água ? Fique tranqüila, não tenho pressa. (continuei insistindo).
Num instante ela levantou-se e determinadamente deu um passo em direção à porta. E parou. Olhou para mim... Pela primeira vez fitou-me nos olhos. Fiz um gesto, apontando para a cadeira. Ainda hesitante, ela deu meia-volta e sentou-se novamente. Senti que voltara mais confiante. E eu também.
- E então, vamos continuar ? ou melhor, vamos recomeçar ?
Apresentei-me e aguardei alguns segundos...
- Maria das Graças.
- Hummm, nome bonito. Sabia que “Graça” significa o amor que deus derrama sobre nós?! é como se fosse um favor divino que deus nos concede, mesmo quando não merecemos.
- Acho que essa tal “Graça” só está no meu nome mesmo, pois minha vida não tem graça nenhuma.
Silêncio novamente ...
- Qual sua idade ?
- Fiz 15 no mês passado.
Fixei todos os meus sentidos naquele corpinho franzino e fiquei tentando encontrar o motivo pelo qual essa menina já não achava graça em viver. Porém não era difícil perceber que, nesse momento, ela precisava muito mais que uma profissional.
Sentei-me na cadeira ao seu lado e comecei a falar calmamente.
- Tenho certeza que você tem uma razão muito importante para ter vindo aqui. E pelo jeito, não deve ter sido uma decisão fácil. Então já posso afirmar que essa coragem que te trouxe até aqui, já é uma graça em sua vida. Nem todo mundo tem essa determinação. Mas se você me disser o motivo dessa tristeza, acho que posso ajudá-la melhor.
Ela permaneceu calada, cabeça baixa e passou a mãos nos olhos tentando, em vão, disfarçar as lágrimas.
- Meu pai diz que chorar não resolve nada. (foi logo se justificando)
- Mas se estiver com vontade de chorar, não fica segurando não. Você vai ver que vai até melhorar. Faz bem pro coração. Às vezes eu também sinto vontade de chorar, fico com esse “nó” na garganta e só passa quando eu “solto a franga”. (brinquei).
- E sua mãe, onde está agora? (continuei
- Morreu quando eu nasci.
Mais uma vez emudeci diante de sua realidade.
- Você está indo à Escola?
- Comecei quando meu pai me “deu” para minha tia me criar. Ele bebia muito e eu ficava sozinha em casa. E fui morar no interior. A gente se mudou pra cá faz 6 meses, porque ela tá doente, veio se tratar. E aí, parei de estudar.
- Mas voltar a estudar é a primeira coisa que você deve pensar. O estudo é um bem que ninguém vai tirar de você. Você não pode desistir assim.
Aos poucos, fui tentando deixá-la mais à vontade. E quanto mais eu a olhava, mais a angústia tomava conta de mim.
De repente, ela pegou uma bolsinha de crochê que trazia a tiracolo, tirou de dentro um papel todo amassado e entregou-me.
- Enquanto a senhora vai lendo, vou ao banheiro, tá?!
Fui abrindo e esticando papel com as mãos ansiosamente, confesso. Ao lê-lo, meu corpo estremeceu: um teste de gravidez positivo. Intuitivamente, levantei-me da cadeira num salto e corri até o banheiro, vazio. Na entrada principal perguntei por ela às pessoas que aguardavam atendimento.
- Ela passou por aqui correndo, parece que viu “assombração”.
Perguntei ao segurança:
- Ela passou agorinha mesmo correndo e entrou naquele bequinho bem ali. Parecia muito assustada.
E durante alguns minutos, fiquei ali, parada... Talvez esperando que ela retornasse. Mas isso não aconteceu. As “duas” crianças fugiram assustadas (pensei).
São Luís (Ma), 29/11/2010
Timidamente ela entrou em minha sala... com um bebê nos braços.
- A senhora lembra de mim ?
Sou péssima fisionomista, mas como esquecer o esmalte Pink e a bolsinha de crochê ?!
- Claro. Como é bom revê-la ! você me deixou bastante preocupada naquele dia.
- A senhora me desculpe. Fiquei com vergonha. Mas eu trouxe ela pra senhora conhecer e vim lhe dizer que eu voltei a estudar. Eu mesma quero criar minha filha. A senhora me ajudou muito. Me mostrou que sou uma pessoa corajosa, não posso desistir não, essa foi a graça que Deus me deu.
-Então peguei a criança nos braços e toda aquela sensação de impotência que experimentei naquele dia em que ela saiu correndo, transformou-se um sentimento gratificante que nenhum dinheiro seria capaz de recompensar-me de tal maneira. Essa é apenas uma das razões pela qual vale a pena acreditar que todos têm direito a uma chance para mudar seu futuro. Às vezes, só precisam de uma palavra de afeto, compreensão, de solidariedade.
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João Antonio
Técnico - MACada vez mais vemos como é importante dar atenção aos nossos filhos, acompanhar seu dia-a-dia, ver suas amizades, dar carinho. nunca sabemos o que se passa na cabeça dos jovens.