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Culto à beleza : simples vaidade ou complexa obsessão?


"Se quisermos congelar o tempo e nos encerrarmos nesse casulo, estaremos liquidados antes mesmo que a juventude acabe. Seremos a nossa ficção. A realidade continuará a nossa volta, e um dia vamos perceber que estamos fora dela."Lya Luft.

 

          As academias estão sempre lotadas, os cirurgiões plásticos com suas agendas cheias e mesmo assim parece que as pessoas continuam insatisfeitas e infelizes com a própria aparência. Não precisamos voltar muito no tempo para lembramos que há algumas décadas o máximo que se poderia esperar em termos de prótese, seriam os dentes... Hoje em dia, quem pode ter certeza sobre cor dos olhos, tamanho dos seios, bumbum, barriga ou cabelos de alguém? ... Tira gordura daqui, enxerta ali. Somente cérebro e coração dessa pessoas não mudam, um permanece vazio e o outro amargurado. Dessa forma, é praticamente irresistível não imaginar uma cena em que uma pessoa, obsessivamente preocupada com beleza, se olha no espelho e repete mentalmente a famosa pergunta da bruxa da Branca de Neve: “espelho, espelho meu...”

          Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que não sou contra os cuidados destinados à beleza, desde que haja coerência. Desejar estar bem vestido, perfumado etc. não é pecado, o que considero errado é fazer disso um objetivo de vida e motivo único de realização pessoal. Não acho errado, por exemplo, fazer uma lipo, mas acho que esta decisão deveria partir de uma motivação ou necessidade íntima, e não apenas para satisfazer a admiração alheia. O certo é que a beleza pode ser encarada de forma natural ou complicada. O importante é cuidar para não se deixar dominar pela ditadura da beleza, por um modelo sem originalidade, que ignora a individualidade de cada um a partir do momento em que “prega” um padrão igual para todos, o qual é geralmente inatingível. O culto do corpo de maneira obsessiva é vazio em si mesmo, ou seja, faz com que as pessoas busquem “coisa nenhuma”, pois a perfeição não é possível de ser alcançada. Além disso, grande parte desses padrões pouco reflete a realidade da maioria da população brasileira. Para não acharem que estou sendo radical em minhas colocações, usarei o raciocínio do médico brasileiro Ivo Pitanguy, "guru" da cirurgia plástica mundial: mais importante do que o culto exagerado ao corpo é o "o culto à inteligência"1.

          A prática do culto à beleza, de uma forma em geral, atravessa indistintamente classes sociais e faixas etárias, embasada numa “justificativa” confusa que mistura estética e saúde. Na verdade o culto ao belo sempre esteve, de diversas formas, ligado à história da evolução do homem. No entanto, foi com o avanço científico do Renascimento que a arte cosmética foi aperfeiçoada, tanto que nos séculos XVII e XVIII itens como perfumes e cremes já tomavam conta do mercado em Paris e o comércio de cosméticos tornou-se uma das molas propulsoras da economia francesa. Com o processo de emancipação feminina, a indústria cresceu e continua em alta até os dias atuais quando os produtos para tratamentos de beleza tornaram-se peças imprescindíveis no cotidiano da maioria das mulheres. Se bem que, hoje em dia, vaidade não é mais exclusividade feminina. Progressivamente, o sexo masculino vem deixando para trás os preconceitos e preocupando-se mais em cuidar da aparência.

          Lipoaspiração, silicone, botox, anabolizantes... A cada ano, dezenas de novos termos são incorporados ao vocabulário “estetiquês”. Multiplicam-se academias, clínicas, tratamentos “anti-isso”, “anti-aquilo”... Todos com um único objetivo: obter uma pele e um corpo “perfeitos”, ou pelo menos o que dizem ser. O resultado às vezes é desastroso, plásticas que deixam uma pele artificialmente lisa, quase inexpressiva. O pior é que essa idéia fixa é cada vez mais precoce, fato que torna o culto à beleza um assunto extremamente preocupante. Vemos espantosamente crianças trocando bonecas por um batom ou sapato de salto, pulando etapas fundamentais da infância. Quero dizer que a vaidade em si não causa preocupação, mas sim os valores que muitos pais estão repassando aos próprios filhos, ensinando-os desde cedo a valorizar o que é completamente dispensável, priorizando o ter ao invés do ser. Os pais precisam ensinar aos filhos que a aparência não é tudo, embora deva ser cuidada; que ao invés de ficarem se preocupando com “pneuzinhos” ou tendências da moda que procurem o que melhor lhes proporcione bem-estar e conforto. É importante ratificar que criança não é uma miniatura de adulto, portanto não está física ou emocionalmente preparada para tal comportamento.

          Somente para dar uma idéia da situação: Em parceria com o Datafolha, a MTV perguntou a jovens, por exemplo, se trocariam 25% de inteligência pela mesma proporção de beleza. Resultado: 15% foram francos o suficiente para admitir a troca. Nem se preocuparam com o fato óbvio de que a beleza física passa rapidamente, mas a inteligência fica. 2 Isso serve para nos comprovar que quando chega a adolescência, fase de intensas modificações corporais e conflitos psíquicos, a procurapor um corpo “perfeito”pode se tornar excessiva, pois é nesta etapaque estes se encontram mais vulneráveisàs interferências do meio. Diversas pesquisas têm demonstrado que, nessa fase, a tirania da beleza por um corpo magro tem gerado inúmeros casos de transtornos alimentares e depressões. Sabemos que estes têm origens internas, no entanto é inquestionável que também são fortalecidos por valores culturalmente impostos pela tirania da beleza. Será que magreza (dentre outros itens) são sinônimos de beleza?

          Não podemos esquecer grandes vilões como as indústrias e a TV que vendem resultados milagrosos e corpos “maravilhosos”. Já o comércio tenta convencer o ingênuo consumidor a comprar o que não está disponível nas vitrines: saúde, juventude, sucesso e felicidade. Como se beleza proporcionasse tudo isso. Se fosse assim, não veríamos jovens tristemente envelhecidos e desmotivados. É fácil constatar que idade e beleza não podem ser medidas simplesmente em anos ou pela imagem externa, efêmera e passageira, mas sim através da saúde e jovialidade do espírito! Nesse sentido, podemos dizer que alguns são belos e outros nunca o serão.

          Enfim, existem limites para a busca da beleza? Limites não sei, mas acredito que um bom parâmetro talvez seja o bom senso e a dignidade. Significa estar e sentir-se bem e confiante mesmo contrariando os moldes que os padrões impiedosamente impõem.  Estar bem com o espelho é conseqüência de bom humor, paz interior, saúde físico-mental, emoções equilibradas e estado de espírito. Nada supera a beleza da alegria do bem estar consigo mesmo. Nesse sentido, melhor que simplesmente admirar-se no espelho é aprender a arte de contemplar-se. A obsessão deve estar em sentir-se bem e com uma auto-estima satisfatória. O único padrão a ser seguido é o respeito aos limites do corpo e a si mesmo.Afinal de contas, se o ser humano, por si só, não conseguir libertar-se da escravidão do padrão inatingível de beleza, tampouco alguma intervenção estética algum dia o fará.

          Por falar nisso, e você ? em se tratando de beleza, os fins justificam os meios na busca desse objetivo?

 

REFERÊNCIAS :

 

1)  http://beleza.terra.com.br/mulher/interna/0..OI1163515-EI7606.00.html (acessado em 04/01/2011)

2)    A Epidemia da Beleza. Gilberto Dimenstein. Folha de S. Paulo. editoria Cotidiano. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/indices/inde08052005.htm (acessado em 06/01/2011)

3)    Branco, L. M., Hilário, M. O. & Cintra, I. P. (2006). Percepção e satisfação corporal em adolescentes e a relação com seu estado nutricional. Revista de Psiquiatria Clínica.



O conteúdo disponibilizado pelos colunistas não reflete necessariamente a opinião da ELO Internet

Christiane Lima

Christiane Lima

Assistente Social, Psicopedagoga e Especialista em Saúde da Família, formada pela Universidade Federal do Maranhão. Atualmente atuando na área de educação e há mais de 10 anos, trabalha na área de saúde junto a adolescentes e gestantes.

Contato para palestra clique aqui


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Comentários sobre Culto à beleza : simples vaidade ou complexa obsessão?

Andyara Moreira

Secretária Executiva - MA
Sou a favor de corrigir imprefeições que venham prejudicar a vida de alguém...baixa estima por exemplo. Conheço muitas pessoas que após terminar um relacionamento, se jogam de cabeça em cirurgias estéticas,botox...enfim, fazem tudo para chamar a atenção, e por fim, acabam se perdendo dentro do seu íntimo, pois tudo passa, e a beleza também.
 

Adalberto Soares

Enfermeiro - MA
Qual homem não gosta de uma mulher com boa aparência, bem cuidada? Contudo, os exageros chegam às raias do absurdo como se vê por aí, na televisão, muitas mulheres já sem expressão de tão repuxadas, isto vale para os homens também que hoje já aderiram bastante aos tratamentos estéticos. Tudo é válido sem excessos.
 

Maria de Fátima

Economista - MA
Vaidade, teu nome é mulher...mas como você diz, agora os homens também estão cada vez mais aderindo ao mundo da beleza, do espelho...melhor para nós que também merecemos homens bem cuidados...abaixo o desleixo, a barriguinha masculina de chopp..e viva o novo homem..cheiroso e sarado..
 

Angélica Teixeira

Estudante Universitária - MA
Eu já fiz alguns procedimentos estéticos, para me sentir melhor ao me olhar no espelho..exageros, concordo que não deveriam existir, porém corrigir imperfeições que incomodam e que levam a nossa auto-estima para baixo..sou completamente a favor..
 

Antônia Vilella

Esteticista - MA
Concordo com você, para tudo limites têm que ser estabelecidos, a obsessão pelo culto à beleza leva a extremos bizarros. Critérios têm que ser observados, e um médico que for responsável saberá impô-los e dizer-lhe o que é possível ou não, vários parâmetros deverão ser seguidos para se ter sucesso seja em regime exagerado, etc... etc....
 

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