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(Trecho da coluna AlexPalhano publicada domingo, dia 10 de outubro de 2010, no jornal O Imparcial)
Foto: Rafael Louzeiro
Para ler o que foi publicado na coluna sobre Ana Karin Dias de Almeida Andrade, clique aqui: TRÊS DIAS COM ELA
VIDE PRAZO DE VALIDADE
E hoje parece um dia cabalístico: 10/10/10. Somando dá 30. Dividido por 10 é três, o número da perfeição e do amor (segundo Lacan “só há amor quando há três”). No entanto, olhando pro lado, em cima e embaixo, tá tudo certo: o mundo ainda não se acabou. O dia também não (só se hoje for amanhã, que será ontem, depois de hoje). Mas pode ter acabado o mundo de alguém ou alguém pro mundo. É… Não se engane: na vida tudo tem prazo de validade.
Mudar é isso. Reconhecer o prazo de validade, a data vencida ou o tempo que vai vencer. Depois, dobrar a esquina. Na maioria das vezes a gente não sabe quando vence a coisa, porque a vida, os amores, os sonhos, o emprego, aquele trabalho, a casa, o casamento, o projeto, a carreira, não vêm datados. Quer dizer, alguns até ainda vêm. Estão estampados na cara, feito predestinação. Algumas pessoas evitam ver isso. Outras até enxergam, mas não recusam; simplesmente saboreiam até a data limite, e descartam assim que vencidos. Um ou outro vence o prazo. E em se tratando de amor e trabalho é melhor não congelar nada. E alma não se congela. Só se esquenta.
Não sabemos quando vai vencer e podemos não aceitar que venceu, mas sabemos que venceu na hora, no gosto, no cheiro. Na pele. De um jeito ou de outro, é fato: tudo tem data de validade.
Fazemos escolhas. Outras vezes, não. Podemos determinar prazos, marcar datas, fazer previsões, planos, projetos. Outras vezes, não. Podemos voltar atrás (só não olha pra trás quem não tem pescoço). Podemos seguir adiante, até com o passado. Outras vezes é melhor não.
É melhor não revirarmos em nós, feito estômago embrulhado, coisas vencidas, comida estragada, leite derramado. Há histórias nunca esquecidas que são melhores ficarem lá: no álbum. Essas sim: congeladas, plastificadas, digitalizadas… E naftalina no pensamento não muda o calendário, não altera prazos, nem evita os efeitos colaterais. Só perfuma, com cheiro ruim, as ideias. Não dá pra temperar o que já foi salgado demais. Se começar a por muita água, desanda. E alguém acaba se afogando de tanto água mole. Acredite: tem pedra dura que não fura. Isso, também, é chover no molhado.
Seguir rumo ao Norte. Virar em direção ao Sul… Criamos nossas próprias bússolas; elas por sua vez são atraídas (ou traídas) por outros tantos ímãs. Não importa. Se orientar se desorientando pode ser. Mas há tonturas que nos chegam de tanto rodar no mesmo lugar. Hoje prefiro me desnortear a andar de um lado para o outro feito um leão criado em cativeiro solto na natureza… É a mais dolorosa imagem da civilização: ficar preso às grades de coisas vencidas.
Podemos cozinhar propostas falidas, retardar prejuízos e futuros, adiar presente. Mas o tempo tem seu próprio relógio. Ele marca, alerta, chega, checa, vasculha, invade, enferruja, sopra, renova, alivia, sufoca, assanha, derruba. Eu sei, você vai me dizer que há lugares em que o tempo parou. Nem me diga, eu conheço bem. Se olharmos bem de perto, não foi o tempo que parou aqui, ou ali. Se fosse isso, não diríamos que estamos atrasados. Em relação a quê? São tantos prazos vencidos...
O tempo não perdoa.
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