Disse Friedrich Nietzsche: “O que não me mata me torna mais forte”. Será?
Os convênios da área de saúde a princípio deveriam ser entidades que permitissem ao usuário um atendimento semelhante ao particular, porém com um custo reduzido. Na teoria deveriam ser interessantes também para o profissional de saúde (na sua grande maioria médicos) os quais se cadastrariam e passariam a consultar, recebendo do convênio o valor referente a cada paciente no final do mês. Uma sinergia benéfica para todos. Tudo muito bonito se na prática não fosse completamente diferente. Até o ano de 1998 os preços ao consumidor dos chamados planos eram definidos por critérios de custos e ou demanda mercadológica. A partir da lei No. 9656/1998 o governo passou a definir regras que regulamentam esta modalidade de serviço. O que observamos é que os governantes que deveriam proteger os interesses dos usuários e garantirem uma relação equilibrada entre custo e qualidade de serviço, termina garantindo aos planos as condições de manterem seus lucros sem dar as devidas garantias aos usuários. Várias tentativas das entidades médicas e odontológicas foram feitas na intenção de obrigarem as operadoras de plano de saúde a respeitarem o pagamento mínimo das tabelas de referência destas entidades como o CFM e o CFO, sendo estes valores calculados como aqueles que remuneram de maneira minimamente justa o profissional. Não existe prejuízo no setor de planos de saúde. Só para exemplificar vou citar aquela que talvez seja a mais conhecida das operadoras de convênios. De acordo com o balanço publicado pela Unimed, foi registrado crescimento de 22,23% no faturamento consolidado da companhia. O patrimônio líquido da Unimed, cresceu 23,84%, atingindo os R$ 213,5 milhões no ano de 2009, em 2008, o montante era de R$ 172,4 milhões. Para o ano de 2010 o lucro desta mesma empresa cresceu 57% somente no 1º semestre ou seja, a teoria do prejuízo não cola. E por que os profissionais sujeitam-se a receber honorários tão baixos se os lucros das operadoras é crescente? Acredito que a concorrência brutal decorrente da falta de política para abertura de novas universidades, associada com a concentração de profissionais no grandes centros, piora muito a vida do pessoal que se veste de branco para ganhar o pão. Não existe setor de saúde que não esteja saturado. Sejam dentistas, médicos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, enfermeiras, terapeutas ocupacionais, todos. Recentemente várias categorias médicas fizeram “greves” contra estes convênios para tentar conseguir melhores condições de pagamento.
Existe uma guerra sendo travada pelas entidades de classe e as operadoras, sendo as principais vítimas os segurados, isto porque muitos bons profissionais estão abandonando o atendimento dos convênios por absoluta impossibilidade de manter a boa prática profissional com honorários por consultas que variam de R$15,00 a R$50,00. Na odontologia é pior ainda porque algumas operadoras pagam somente R$4,00 por face de restauração, costumo brincar com minhas colaboradoras que para ganhar um valor absurdo destes é melhor vender “Natura”. O custo para manter um consultório gira em média na casa dos R$4 mil reais por mês (funcionários, aluguel de sala, contador, energia, água e etc). Para garantir o pagamento de tudo com valores tão baixos seria preciso realizar 1000 restaurações por mês! Ou no caso dos médicos 267 consultas! São quase 17 dias do mês, nos sobram 5 dias úteis para ganhar o restante para sobreviver. E não incluí nestes cálculos os valores do material de consumo para estes atendimentos. Estes valores são absurdos e mostram porque os profissionais da área de saúde vive hoje uma situação complicadíssima.
Na doce ilusão de que o atendimento nestas condições irá garantir uma futura clientela muitos jovens profissionais começam suas atividades clínicas atendendo estes planos,com o passar do tempo percebem que na maioria das vezes estão pagando para trabalhar,mesmo assim alguns insistem por mais algum tempo,apenas para terminarem endividados para manter a cara vida de “classe média” brasileira.Nem vou falar nos impostos porque ai as lágrimas vão inundar o meu teclado.
Ao entrevistar alguns profissionais para esta coluna percebi uma certa frustração latente nos meus colegas de profissão,frustração que se estende para outras profissões da área médica,não somente uma frustração financeira,mas também uma frustração com a progressiva diminuição do “status” destes profissionais,resultado das péssimas condições de trabalho nas quais muitos médicos são obrigados a trabalhar,além de uma jornada de trabalho extenuante,muitos amigos médicos para garantir seu padrão de vida colocam a própria saúde em risco ao trabalharem em 3,4 ou até mesmo 5 plantões semanais. Nem vou comentar sobre os honorários pagos pelo SUS,ponto. Ponto mesmo.
Aqueles que sobrevivem aos planos não saem fortalecidos,saem cansados,frustrados e em algumas vezes falidos. Infelizmente neste caso a frase de Nietzsche não se aplica. O que não nos mata nos aleija.
Dr. Marcelo Rocha
São Luís - MAFábio!Então o "Dr" ai em questão não vem de nenhum doutorado não,mas sim de uma tradição que não fui eu quem comecei nem tampouco questionarei,chamam de "Dr." tradicionalmente médicos,dentistas,advogados e em algumas regiões engenheiros.Reconheço que os doutorados de fato fazem por merecer muito mais estas letrinhas aí,não faço questão de ser "Dr." isso ou aquilo.Entendo sua revolta em relação aos professores universitários e compartilho de sua opnião,minha esposa é bióloga e mestranda e passa pelas agruras de ser professora e a apaixonada por ciência neste país.O objetivo da matéria é justamente despertar nas pessoas a valorização do profissional,neste caso de saúde,já que esta é uma coluna sobre este tema em especial.Espero sinceramente que possamos vivenciar em um futuro próximo uma maior valorização dos educadores desta nação.