(Crônica publicada na coluna de domingo, 03 de outubro de 2010)
“Que posso fazer se as alucinações e as visões vivem, têm nome e endereço?” - Karl Kraus
PIRLIMPIMPIM
Mais uma vez escrevo esta coluna a bordo de uma aeronave. Quem dera pudesse estar voltando para meu planeta de origem: Marte. Por enquanto, não. É mais uma ponte aerea São Luís/São Paulo/Rio a trabalho, e claro, em busca de alguma diversão perdida entre humanos, já que estarei na Paulicéia Desvairada e, de quebra, na Cidade Maravilhosa.
Adoro. Lembro logo de uma amiga doidinha que diz que é na perdição que ela se acha. Eu, por outro lado, me perco toda vez que quero me achar. Tudo bem: aprovo e financio esse esconde-esconde de mim mesmo. Com umas doses de álcool e boas companhias então... Uau! A brincadeira fica bem mais interessante. E entre se conhecer e conhecer gente, o outro; nada de moderção. Dessa brincadeira adulta eu gosto. Você não?!
Sim, mas o que quero falar hoje não é de troação, perdição, “achação” (Como não?!). Quero falar com você sobre teletransporte. “Hãn?!” Isso mesmo. Sabe Jornadas nas Estrelas?! Sim, a tripulação da Interprise era muito chic: entrava numa espécie de câmera de transporte e zzzzz... Se desmaterializava e num instante estavam todos em outro canto, inteirinhos. E da Emília do Sítio do Picapau Amarelo, lembra? A boneca de pano de Monteiro Lobato inventou uma palavra que até hoje digo, mentalmente, quando preciso fugir de um espaço para outro imediatamente...
Pirlimpimpim! Foi o que gritei na hora que cheguei no Aeroporto Cunha Machado para embarcar. O bafo de calor desse lugar, que mais parece uma rodoviária (diz que eu tô exagerando?!), estava pior do que o normal, e olha que o normal é imoral. Pra variar, onde era pra tá climatizado, o ar condicionado (a não funcionar) não funcionava. Diz que tinha faltado energia; então o restaurante e a sala de embarque (cujo ar nunca funciona mesmo) viram a sucursal do Inferno.
Uma perua toda apertada e com uma sandália altíssima de cor, também, de gosto duvidoso (me diga pra quê uma sujeita precisa tá calçada, a luz do dia, com um sol de rachar a alma, em um tijolo laranja flúor?!) parecia uma enviada do Exú, toda melada de suor, com cabelo cor de fogo, vindo em minha direção. Pensei: vieram me buscar e não vou mais pro Céu. Dei de ombros e fingi de morto. Procurei o banheiro mais próximo, como se fosse minha igreja, pra orar e pedir perdão dos meus pecados. Em vão: nem banheiro tem mais na sala de embarque. O que pensei na hora?! Pirlimpimpim!
Pus minha mente pra trabalhar e acreditar cegamente no “Segredo”, a tal Lei da Atração, e gritei baixinho: Deus me põe neste avião, me leva pro Céu! Me arrebata, porque eu não quero morrer agora, nem aqui, nem assim! Eu estava emprensando o Todo Poderoso na parede com minha fé e uma faca amolada, que é meu juízo (final?!).
Passado o burgatório, embarcamos. Sim, eu e outros agonizados. Felizmente nunca estamos sozinhos. Se é pra gozar ou pra sofrer é bom termos companhia, não concorda?! Então, entre todos os suados, salvaram-se todos!
P.S: Vixe... Lá vem o serviço de bordo. E eu que pensava estar perto do Céu. Desprezo qualquer falta de sabor. Até na comida. Prefiro me alimentar de escrúpulos que eu mesmo preparo. Karl Kraus também gostava
Manoela
Analista de RH - MAAlex, ri pra caramba e ainda estou rindo, mas teu texto tem toda a seriedade que mereçe. A cena do demônio vindo em sua direção com um sapato fluor, está impagável.