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Certo dia, uma criança – com a curiosidade de quem ouviu uma nova palavra, mas ainda não entendeu seu significado – perguntou à sua avó: “O que é velhice?
Na fração de segundo antes da resposta, a avó fez uma verdadeira viagem ao passado. Lembrou-se dos momentos de luta, das dificuldades, das decepções. Sentiu todo peso da idade e da responsabilidade em seus ombros.
Tornou a olhar para o neto que, sorrindo, aguardava uma resposta. “Olhe para meu rosto", disse ela. "Isso é a velhice".
E imaginou o garoto vendo as rugas, e a tristeza em seus olhos. Qual não foi sua surpresa quando, depois de alguns instantes, o menino respondeu: “Vovó! Como a velhice é bonita!”
No mês em que se comemora o Dia do idoso, nada mais justo do que abordar esse tema. É imprescindível que as gerações mais jovens comecem a rever suas concepções sobre a velhice, ajudando na construção de uma imagem cidadã da terceira idade.
Mas afinal, o que é ser idoso1? É simplesmente alguém com rugas? O sentimento de envelhecimento acontece de forma distinta para cada pessoa, deixando algumas profundamente angustiadas, enquanto que outras a encaram de forma tranqüila. De qualquer forma, fica evidente que esse processo é contínuo, ou seja, não se inicia em uma idade específica. Enfim, não é simples delimitar quando uma pessoa se torna idosa.
Alguns pesquisadores definem o envelhecimento como um processo biológico, outros como patológico, sócio-econômico ou psicossocial. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a qualidade de vida na Terceira Idade pode ser definida como a manutenção da saúde, em seu maior nível possível, em todos os aspectos da vida humana: físico, social, psíquico e espiritual. Afinal de contas, o maior benefício de se manter saudável não pode se reduzir pura e simplesmente em evitar a morte prematura, mas sim apoiar-se num objetivo bem mais “nobre”, o de melhorar a qualidade de vida.
O Brasil, antes reconhecido como um país jovem, atualmente possui cerca de 13,5 milhões de idosos, ou seja, 8% de sua população. Isso significa que, em 20 anos será o sexto no mundo com o maior número de pessoas idosas. Portanto, falar sobre velhice em um país que ostenta o ideário de ser uma nação jovem, não é algo fácil. Envelhecer não é fácil em uma sociedade que “cultua” a beleza e a juventude e conseqüentemente negligencia ou ignora a velhice, esquecendo que respeitar o idoso é saber respeitar dia de amanhã que nos aguarda. Nesse sentido, pode-se argumentar: Mas e o Estatuto do Idoso? O Brasil possui uma infinidade de estatutos e leis, os quais não são obedecidos. Infelizmente ainda persiste uma escandalosa desproporção entre a lei e a aplicação desta. O Poder Público não tem conseguido desenvolver ações eficazes que assegurem aos idosos as condições necessárias ao pleno exercício de sua cidadania. Falta-lhes emprego, saúde e habitação dignos.
O que observamos hoje é que mesmo no ambiente familiar, o idoso nem sempre recebe o carinho e atenção básicos, fato que os relega à torpe realidade do asilamento. Esse abandono geralmente acontece quando o idoso já não pode trabalhar, e assim perde seu status de trabalhador, ficando dependente financeiramente. Nesse ponto, se sobressai mais um forte motivo para o investimento na qualidade de vida, pois enquanto há saúde, maior a probabilidade da manutenção da independência e da autonomia e o fantasma do abandono se distancia.
É imprescindível que os idosos permaneçam entusiasmados com a vida, que ainda se sintam portadores de sua capacidade produtiva e possam opinar e decidir sobre tudo que lhes diz respeito, isso ajuda inclusive a lutar contra as enfermidades. Se a aceitação do processo de envelhecimento for construtiva, benéfica e realista, será mais fácil repensar seus projetos de vida, conviver positivamente com as mudanças e estabelecer novas metas, de forma serena e segura.
Mas venhamos e convenhamos, temos que admitir que não é nada simples envelhecer no Brasil, ironicamente é uma verdadeira “aventura” vencer dia após dia o risco das calçadas e ruas esburacadas; fora a agilidade olímpica para atravessar as ruas sem semáforo (ou até mesmo quando estas os possuem), além do obstáculo quase intransponível do degrau dos ônibus. É necessário um esforço conjunto entre família, governo e sociedade para que os idosos deixem de ser “cidadãos de papel” e tenham seus os direitos, já conquistados, plenamente garantidos.
A propósito, aproveitando essa véspera de eleições, é bem oportuno ressaltar que a Constituição Federal de 1988 tornou facultativo o voto para pessoas com mais de setenta anos. Mesmo assim, segundo pesquisas do IBGE, nas eleições de 1998, 7,5% dos eleitores tinham de sessenta a oitenta anos.Então fica a sugestão para o próximo (a) Presidente, governador (a), deputados (as) e senadores (as), para que todos os brasileiros possam comparecer às urnas confiando em dias melhores; para que os idosos sejam respeitados e não sejam mais obrigados a ficar em filas; pagar passagem de ônibus coletivo; para que recebam descontos em atividades de cultura, esporte e lazer; possam adquirir medicamentos gratuitos nos postos de saúde e tenham vagas de estacionamento... E para a realidade mude para melhor, é necessário que esta continue sempre sendo alvo de debates e reivindicações, pois sem uma mobilização permanente da sociedade o processo de envelhecimento saudável dos brasileiros não sairá do papel. Enfim, nada mais justo se levarmos em consideração que esse futuro é irreversível para todos nós, especialmente para aqueles que apostam na longevidade.
É preciso investir na valorização do idoso enquanto ser individual e social, afinal a terceira idade também pode ser sinônimo de vida ativa e saudável e produtiva. Sendo assim, o fortalecimento dos laços afetivos familiares é e sempre será a alternativa mais viável, já que através da solidariedade entre as gerações, estes tenham garantia de acesso aos seus direitos sociais
Envelhecer não é um problema, é sim um privilégio. Deixemos a idade biológica bater à nossa porta sem qualquer cansaço. E caso você se depare com alguém que ainda acredite que a velhice é mais um problema social no Brasil, não pense duas vezes antes de falar, do alto de sua saúde jovial : “ velho é o seu preconceito!”
1) A Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica cronologicamente como idosa a pessoa com mais de 65 anos de idade em países desenvolvidos e com mais de 60 anos de idade em países em desenvolvimento.
REFERÊNCIA :
1) http://estatutodoidoso.blogspot.com/2009/11/velhice-segundo-oms-comeca-aos-65-anos.html (acessado em 27/09/2010)
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João
Contabilista - PRÉ... É lindo ficar velho. É lindo ter artroses, pressão alta, diabete, maior tendência ao Parkinson, ao Alzheimer, ao câncer, ao AVC, ter a reverência dos filhos, ter uma aposentadoria super decente como ao do INSS, lindo demais...