| Alta | 04:17h | 5,2m |
| Baixa | 10:45h | 1,1m |
| Alta | 16:39h | 5,1m |
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“A constância é contrária à natureza, contrária à vida. As únicas pessoas completamente constantes são os mortos”
Aldous Huxley
Bom dia, leitor! Saiba logo de cara que essa saudação já serve pro dia todo; seja agora hoje à tarde ou amanhã à noite. Serve até pra você que pega esta folha de jornal neste instante, que cedo ou mais tarde servirá para embrulhar o peixe do mercado, ou para tapar a vitrine da loja cujo único destino é ser inaugurada. Só não servirá para quem quiser tapa o sol. Hoje sou uma peneira. Portanto, ao invés de cobrir, vou revelar. Hoje, que sempre é um dia depois de ontem, alguns raios vão escapar de mim. Vou ser o atravessador de mim mesmo. Hoje, pelo menos...
Pra começo de conversar quero dizer: nunca gostei muito de despertar. E acordar ultimamente tem sido uma ginástica que não me tira nenhum excesso de peso. Nunca fui de pular da cama mesmo. Nunca fui de saudar o dia sorrindo. Sempre achei que só os tolos podem escapar da verdade simples; seja ela qual for, mesmo uma mentira que esqueceu de acontecer, a mim a verdade me chega como um lembrete frio, e sussurra: é hoje.
E de manhã levo um tempo pra me tornar Alex, para me ajustar ao que esperam de Alex e de como se comportar. Às vezes surpreender é o que esperam. Eu, cansado disso, levanto dos meus sonhos. Quando termino de me vestir e coloco a última camada de protetor solar no Alex de agora, acordado por realidades possíveis, levemente austero e quase perfeito (não fossem os sonhos mal dormidos), penso: sei exatamente o que interpretar. E eu me plagio muito bem.
Olho no espelho que me devolve o olhar, não de um rosto, mas a expressão de um dilema. E grito olhando pra esse Alex: vamos lá enfrentar o maldito dia, que tenho a obrigação imposta por mim mesmo de torná-lo bom. Quantos leões tenho que matar hoje? Quantas segundas-feiras ainda serão todos os dias? Por que não posso só desligar o botão? E apertar o outro? O piloto automático não tá dando certo. Hoje, pelo menos...
Todo mundo diz que quando você fica mais velho, se estar mais velho, terá toda essa experiência como algo fantástico. Grande besteira. A cada dia nos tornamos mais insensatos. “Então toda a sua experiência é inútil?”, você me perguntaria. Eu diria que não. O senhor Huxley, autor da frase de hoje desta coluna estampada e torta ao lado, escritor que passou a maior parte de sua vida cego, disse certa vez: “A experiência não é o que acontece ao homem. É o que o homem faz com que aconteça a ele”. Ele enxergava além.
E sem olhar para o próprio umbigo, pergunto a mim mesmo: quem sabe o que realmente gosta, por exemplo? Só podemos vivenciar o mundo exterior através da percepção parcial que temos. Só vejo o que acho que você gosta. Olhando pro espelho de novo, “reflexio”: sou exatamente o que aparento ser... Se olhar bem de perto, você verá que que sou um pirata de mim mesmo, idêntico ao original, perdido em mim. E daí se hoje é um dia depois de ontem e o futuro nem é ainda lembrança?!
Amanhã. De que amanhã se trata? De que futuro foi feito ontem? Hoje, só perguntas.
P.S. Aldous Huxley foi um inglês que morreu em Los Angeles no começo dos anos 60 e escreveu uma série de romances, novelas, roteiros para cinema, que combinam diálogos emocionantes, e um aparente ceticismo, com profundas considerações morais. Sua obra obra prima foi obra-prima de Huxley, "Admirável Mundo Novo” (1931). Escreveu muito, livros incríveis como “Também o cisne morre" (1939), "O Tempo pode parar" (1944), "O macaco e a essência" (1948). Huxley foi o pioneiro do "romance cerebral". Um ensaísta brilhante. Em seu leito de morte, impossibilitado de falar, Huxley escreveu um pedido à sua mulher: "LSD, 100 µg, intramuscular". Ela atendeu: uma dose às 11h45 e outra algumas horas depois. Ele morreu às 17h21, no dia 22 de novembro de 1963, aos 69 anos.
(Para ver as fotos e mais crônicas deste jornalista publicadas no jornal O Imparcial, acesse: www.alexpalhano.com.br)