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Consumismo Infantil X Mídia: À mercê do bom senso.


"Você deve ser o exemplo da mudança que deseja ver no mundo." (Mahatma Gandhi)

 

          Há cerca de duas semanas em um supermercado da cidade, observei uma cena bem clássica: a criança se joga no chão, faz birra e insiste em pedir para que a mãe compre um tipo de salgado simplesmente porque na embalagem tem a gravura do seu personagem preferido. Eu diria, que este é um verdadeiro ritual de passagem que a maioria dos pais já passou ou irá passar algum dia. Basicamente existem dois desfechos bem óbvios : No primeiro, a mãe resiste...resiste e muitas das vezes acaba cedendo e daí por diante será bem difícil “engatilhar um não”; Já o segundo, exige uma boa dose de paciência e uma convicção forte o suficiente para não desabar diante do dilema “posso-mas-não-devo”. Em suma, a estratégia escolhida para vivenciar esse momento será decisiva para o futuro.

          Coincidentemente, nessa mesma semana li uma pesquisa1, relacionando obesidade e consumo infantil, da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, Estados Unidos, a qual analisava o comportamento de 64 mães de filhos entre 3 e 5 anos.  Segundo a pesquisa, “as mães apontavam os comerciais e as embalagens apelativas como as razões que mais faziam os seus filhos insistirem para comprar alimentos pouco saudáveis. Quer dizer, mesmo que uma criança não goste de um certo tipo de bolacha recheada, você sabe, se o desenho preferido dele estiver na embalagem, ela com certeza vai pedir para experimentar.”

       Com o verdadeiro “bombardeio” da mídia, aliada à natural vulnerabilidade infantil, o produto excessivamente divulgado, sobe para o topo de sua lista de primeiras necessidades. Eu diria que, até nós mesmos adultos, às vezes somos “coagidos” a comprar, não é mesmo?  Por outro lado, será que a mídia é a única culpada ? Será que a obesidade na infância pode ser combatida com limite impostos pelos pais ou o limite na publicidade já resolveria grande parte do problema? Sabemos que há um verdadeiro abuso para as crianças, através da mídia, no que se refere ao consumo de produtos supérfluos. Mas como ensinar os filhos a comerem alimentos saudáveis se os próprios pais comem guloseimas fora de hora?  As regras precisam ser claras e justas. A melhor lição ainda é o exemplo.

          Todos sabemos que, na infância, somos suscetíveis à fantasia e não conseguimos diferenciar de forma efetiva o que é real da imaginação. Infelizmente, no Brasil ainda não há regulamentação para a publicidade dirigida às crianças, e essa polêmica tem levantado discussões na sociedade e deixado os pais confusos.  De um lado, há os que defendem a proibição de qualquer tipo de publicidade dirigida às crianças, seja na televisão, na internet ou nos meios impressos (os motivos são os mais diversos); Do outro há os que vêem a proibição como uma forma de censura à liberdade da comunicação. Bem, e os pais como ficam ? À mercê da aprovação da lei ? Eu diria que seria à mercê do bom senso.

            Ainda existe um outro lado da história : E os pais que não podem dar a seus filhos os produtos que eles sonham por terem visto na propaganda ? Esse desejo gera um sentimento que pode levar a um comportamento agressivo para conseguirem aquele produto que foram induzidos a consumir.  São as milhares de crianças que moram em condições precárias e a quem falta tudo, menos uma telinha que as leva direto para um mundo de sonhos onde tudo é possível. Podemos dizer que a propaganda submete-os à lógica de que para “ser alguém” é preciso “ter algo”. Daí, muitos adolescentes e até mesmo crianças roubarem objetos de “marca”, tais como : tênis, camisas, celulares ....Já haviam pensado sob essa ótica ? Ou vocês compartilham da mesma impressão que eu, ou seja, o problema é bem mais sério do que imaginávamos ?

            O artigo 36 do Código de Defesa do Consumidor diz que a publicidade deve ser facilmente percebida como tal. Porém, com quantos anos passamos a fazer essa distinção? De acordo com um projeto chamado Criança e Consumo, do Instituto Alana2,“crianças de até 6 anos não possuem a representação simbólica necessária para o entendimento do valor do dinheiro, isto é, não conseguem ainda saber se algo é caro ou barato, pois a sua capacidade de entender os símbolos está em formação”. Logo, imagino que, sem fazer essa lógica, não há entendimento concreto sobre necessidades de “ter” algo, muito menos se o “ser” está associado ao “ter”, que é o princípio básico da sedução da propaganda.

          Vale ressaltar ainda o  projeto3 1637/07, do deputado Carlos Bezerra (PMDB-MT), aborda a oferta, propaganda, publicidade, informação e outras práticas que divulguem e promovam alimentos com quantidades elevadas de açúcar, gordura saturada, gordura trans, sódios, e bebidas com baixo teor nutricional. Atualmente, o projeto ainda está em tramitação na Câmara dos Deputados. 

As proposições são as seguintes: 

- Obrigatoriedade de inclusão de mensagens de advertência de cunho sanitário; 

- Veiculação na mídia televisiva e eletrônica apenas entre 21h e 6 horas; 

- Proibição de informar ou sugerir, por qualquer  meio, qualidades nutricionais ou benefícios à saúde que não correspondam à realidade do produto; 

- Proibição de concessão de brindes ou prêmios pelas empresas que comercializam esses produtos; 

- Proibição de veiculação durante programação infantil; 

- Impedimento de utilização de figuras, desenhos, personalidades e personagens que sejam admirados pelo público infantil; 

- Proibição de veiculação nas instituições de ensino infantil ou fundamental e em outras entidades públicas ou privadas destinadas a fornecer cuidados às crianças, bem como na produção de material educativo e em eventos de incentivo a cultura, educação ou desporto.

            O ideal mesmo seria não haver necessidade de leis para que a composição do salgadinho tivesse menos gordura trans e os pais pudessem dormir tranqüilos sabendo que seus filhos não seriam incentivados a comer algo que mata do coração. Ou se as propagandas motivassem as crianças a desenvolverem valores reais e úteis como a solidariedade e a preservação do nosso planeta. Não é mesmo?

 

Referências :

1 http://www.unire.com.br/index.aspx (acessado em 01.12.2011)
2 http://www.alana.org.br/ ( acessado em 09.12.2011)
3http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=360369 (acessado em 14.12.2011)


O conteúdo disponibilizado pelos colunistas não reflete necessariamente a opinião da ELO Internet

Christiane Lima

Christiane Lima

Assistente Social, Psicopedagoga e Especialista em Saúde da Família, formada pela Universidade Federal do Maranhão. Atualmente atuando na área de educação e há mais de 10 anos, trabalha na área de saúde junto a adolescentes e gestantes.

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Comentários sobre Consumismo Infantil X Mídia: À mercê do bom senso.

Valdeci Gomes

Dona de Casa - MA
Todas as vezes que tenho de dizer não ao meu filho porque ele deseja uma coisa e não posso dar fico arrasada, com sentimento de derrota por não poder dar a ele aquilo que outras crianças menos favorecidas têm e ele não.
 

Regina Souza

Autônoma - MA
Quanta porcaria comemos por causa da propaganda, gordura trans, açúcar, com rótulos enganativos que prometem aquilo que não existe, é verdade que nossas crianças deveriam aderir a hábitos saudáveis, como ajudar a natureza, não poluir o planeta.
 

Diego Saldanha

Técnico - MA
As propagandas, na escola, em casa, nossas crianças deveriam ser incentivadas a hábitos de consumo saudáveis para que tenham um futuro tranquilo em todos os sentidos.
 

Pamela Anchieta

Turismóloga - MA
Diariamente somos bombardeados pela mídia com propagandas consumistas, apelativas até, e ficamos no meio de um fogo cruzado, haja paciência.
 

Estela Moreira

Dona de Casa - MA
Na minha época não tinha esse negócio de birra, "não" era "não" com todas as letras e pronto, não tinha isso de "meu colega tem isso e eu não", hoje os filhos quando querem enloquecem os pais, e eles acuados e para se verem livres do problema acabam cedendo.
 

Marli Jacinto

Dona de Casa - MA
Haja convicção para engatilhar um "não" para um filho birrento com a mídia em seu calcanhar o tempo todo, a palmadinha não vai fazer mal nenhum.
 

Newton Pessoa

Agrônomo - MA
Os pais são grandes culpados pela birra dos filhos, o não deve ser dito sempre que necessário se faça, senão depois nos arrependeremos.
 

Thales Carvalho

Comerciário - MA
Quantas vezes já nos deparamos com situações assim, e envergonhados ficamos por não sabermos impor limites.
 

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