| Alta | 04:17h | 5,2m |
| Baixa | 10:45h | 1,1m |
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"Você deve ser o exemplo da mudança que deseja ver no mundo." (Mahatma Gandhi)
Há cerca de duas semanas em um supermercado da cidade, observei uma cena bem clássica: a criança se joga no chão, faz birra e insiste em pedir para que a mãe compre um tipo de salgado simplesmente porque na embalagem tem a gravura do seu personagem preferido. Eu diria, que este é um verdadeiro ritual de passagem que a maioria dos pais já passou ou irá passar algum dia. Basicamente existem dois desfechos bem óbvios : No primeiro, a mãe resiste...resiste e muitas das vezes acaba cedendo e daí por diante será bem difícil “engatilhar um não”; Já o segundo, exige uma boa dose de paciência e uma convicção forte o suficiente para não desabar diante do dilema “posso-mas-não-devo”. Em suma, a estratégia escolhida para vivenciar esse momento será decisiva para o futuro.
Coincidentemente, nessa mesma semana li uma pesquisa1, relacionando obesidade e consumo infantil, da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, Estados Unidos, a qual analisava o comportamento de 64 mães de filhos entre 3 e 5 anos. Segundo a pesquisa, “as mães apontavam os comerciais e as embalagens apelativas como as razões que mais faziam os seus filhos insistirem para comprar alimentos pouco saudáveis. Quer dizer, mesmo que uma criança não goste de um certo tipo de bolacha recheada, você sabe, se o desenho preferido dele estiver na embalagem, ela com certeza vai pedir para experimentar.”
Com o verdadeiro “bombardeio” da mídia, aliada à natural vulnerabilidade infantil, o produto excessivamente divulgado, sobe para o topo de sua lista de primeiras necessidades. Eu diria que, até nós mesmos adultos, às vezes somos “coagidos” a comprar, não é mesmo? Por outro lado, será que a mídia é a única culpada ? Será que a obesidade na infância pode ser combatida com limite impostos pelos pais ou o limite na publicidade já resolveria grande parte do problema? Sabemos que há um verdadeiro abuso para as crianças, através da mídia, no que se refere ao consumo de produtos supérfluos. Mas como ensinar os filhos a comerem alimentos saudáveis se os próprios pais comem guloseimas fora de hora? As regras precisam ser claras e justas. A melhor lição ainda é o exemplo.
Todos sabemos que, na infância, somos suscetíveis à fantasia e não conseguimos diferenciar de forma efetiva o que é real da imaginação. Infelizmente, no Brasil ainda não há regulamentação para a publicidade dirigida às crianças, e essa polêmica tem levantado discussões na sociedade e deixado os pais confusos. De um lado, há os que defendem a proibição de qualquer tipo de publicidade dirigida às crianças, seja na televisão, na internet ou nos meios impressos (os motivos são os mais diversos); Do outro há os que vêem a proibição como uma forma de censura à liberdade da comunicação. Bem, e os pais como ficam ? À mercê da aprovação da lei ? Eu diria que seria à mercê do bom senso.
Ainda existe um outro lado da história : E os pais que não podem dar a seus filhos os produtos que eles sonham por terem visto na propaganda ? Esse desejo gera um sentimento que pode levar a um comportamento agressivo para conseguirem aquele produto que foram induzidos a consumir. São as milhares de crianças que moram em condições precárias e a quem falta tudo, menos uma telinha que as leva direto para um mundo de sonhos onde tudo é possível. Podemos dizer que a propaganda submete-os à lógica de que para “ser alguém” é preciso “ter algo”. Daí, muitos adolescentes e até mesmo crianças roubarem objetos de “marca”, tais como : tênis, camisas, celulares ....Já haviam pensado sob essa ótica ? Ou vocês compartilham da mesma impressão que eu, ou seja, o problema é bem mais sério do que imaginávamos ?
O artigo 36 do Código de Defesa do Consumidor diz que a publicidade deve ser facilmente percebida como tal. Porém, com quantos anos passamos a fazer essa distinção? De acordo com um projeto chamado Criança e Consumo, do Instituto Alana2,“crianças de até 6 anos não possuem a representação simbólica necessária para o entendimento do valor do dinheiro, isto é, não conseguem ainda saber se algo é caro ou barato, pois a sua capacidade de entender os símbolos está em formação”. Logo, imagino que, sem fazer essa lógica, não há entendimento concreto sobre necessidades de “ter” algo, muito menos se o “ser” está associado ao “ter”, que é o princípio básico da sedução da propaganda.
Vale ressaltar ainda o projeto3 1637/07, do deputado Carlos Bezerra (PMDB-MT), aborda a oferta, propaganda, publicidade, informação e outras práticas que divulguem e promovam alimentos com quantidades elevadas de açúcar, gordura saturada, gordura trans, sódios, e bebidas com baixo teor nutricional. Atualmente, o projeto ainda está em tramitação na Câmara dos Deputados.
As proposições são as seguintes:
- Obrigatoriedade de inclusão de mensagens de advertência de cunho sanitário;
- Veiculação na mídia televisiva e eletrônica apenas entre 21h e 6 horas;
- Proibição de informar ou sugerir, por qualquer meio, qualidades nutricionais ou benefícios à saúde que não correspondam à realidade do produto;
- Proibição de concessão de brindes ou prêmios pelas empresas que comercializam esses produtos;
- Proibição de veiculação durante programação infantil;
- Impedimento de utilização de figuras, desenhos, personalidades e personagens que sejam admirados pelo público infantil;
- Proibição de veiculação nas instituições de ensino infantil ou fundamental e em outras entidades públicas ou privadas destinadas a fornecer cuidados às crianças, bem como na produção de material educativo e em eventos de incentivo a cultura, educação ou desporto.
O ideal mesmo seria não haver necessidade de leis para que a composição do salgadinho tivesse menos gordura trans e os pais pudessem dormir tranqüilos sabendo que seus filhos não seriam incentivados a comer algo que mata do coração. Ou se as propagandas motivassem as crianças a desenvolverem valores reais e úteis como a solidariedade e a preservação do nosso planeta. Não é mesmo?
Referências :
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Valdeci Gomes
Dona de Casa - MATodas as vezes que tenho de dizer não ao meu filho porque ele deseja uma coisa e não posso dar fico arrasada, com sentimento de derrota por não poder dar a ele aquilo que outras crianças menos favorecidas têm e ele não.