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"Mãããe, como eu nasci ?!"


"O Joãozinho ouviu na escola uma história muito estranha ... Chegou em casa disposto a tirar isso a limpo. Então perguntou:

— Vó, como é que eu nasci?

— A cegonha que trouxe.

Ele pensou mais um pouco e disse:

— Vô, como é que eu nasci?

— De uma sementinha.

Ele falou pro pai, pra mãe, e cada um veio com uma historinha diferente. Aí ele disse:

— Mas ninguém faz sexo nessa casa?"

 

            O que é sexo? Da onde eu vim? Para que serve a camisinha? Por que meu corpo é diferente do seu? Como se faz um bebê?Geralmente, a curiosidade para saber de onde vêm os bebês começa com a gravidez da mãe ou de outra pessoa próxima . Na maioria das vezes, essas perguntas chegam de sopetão, sem nenhuma preliminar. Qual a saída ? Existe algum truque? Claro que sim. Não vale engasgar, fingir que não ouviu. É fundamental não mentir e não responder mais do que seu filho perguntar, segundo a idade que tenha. O assunto "sexo" não precisa ser tabu e pode ser tratado com naturalidade.

            De nada adianta evitar esse papo com os filhos. Sexo e sexualidade são assuntos que não podem ser adiados. Segundo a educadora sexual americana Logan Levkoff, autora do livro ''Como Falar de Sexo Com Seus Filhos'' (ed. Gente) : ''Quando não damos informações claras sobre sexo, jogamos crianças despreparadas em um mundo cheio de riscos''. Aliás, a repressão nunca é a melhor maneira de educar, ainda mais se for uma criança. Proibição pode, inclusive, estimulá-la a ir de encontro com o que foi dito pelos pais.

            A pesquisa "Retrato do Comportamento Sexual do Brasileiro1", realizada pelo Ministério da Saúde em 2009 com 8 mil pessoas, mostra que 35,4% dos brasileiros fizeram sexo antes dos 15 anos de idade. É fato: crianças e adolescentes estão descobrindo a sexualidade e os limites do próprio corpo cada vez mais cedo. Outro dado alarmante: Pesquisa feita pelo psiquiatra Jairo Bauer com 7.520 jovens, com idades entre 13 e 17 anos, revela que apenas 30% dos entrevistados conversam sobre sexo em casa, ou seja, a cada 10 famílias somente 3 falam sobre esse assunto2.

            A sexualidade está em todos os lugares: Em casa, na escola, na mídia ... E as crianças nunca tiveram tanta facilidade em ver e ouvir falar do tema. É, não dá para fingir que o assunto não existe. Contraditoriamente, falar sobre sexo continua sendo tabu. Enquanto alguns acham que falar sobre o assunto cedo demais, pode incentivar ao namoro ou à atividade sexual precoces. Outros receiam deixar "passar a hora apropriada".  Ou seja, para muitos pais, falar sobre sexo com os filhos é tão importante quanto constrangedor. Sem dúvida, este é um assunto delicado que deve ser tratado com muita segurança e clareza. A idade certa pra falar sobre sexo é quando surge o interesse. Entretanto, o importante é dar a segurança ao seu filho para que sempre pense que pode também contar com os pais para esclarecerem perguntas difíceis. Caso contrário, pode buscar informações em fontes nem sempre confiáveis, como os amigos, filmes, revistas, sites etc. Vale ressaltar que é importante entender da onde vem a curiosidade afim de saber se a criança está adquirindo hábitos não indicados para ela ou não.        

            É unanimidade entre educadores sexuais que o ideal é desde pequeno, aprender a lidar com os nomes de seus genitais. Se podemos chamar cabeça de cabeça e mão de mão ... Por que as partes íntimas do corpo têm que receber apelidos ? O preconceito já começa a ser gerado a partir daí. Os pais devem estabelecer com os filhos uma relação baseada na verdade. Nada de contos da cegonha ou sementinhas. É claro que ninguém vai pegar um manual de anatomia para explicar para uma criança como o pênis do papai penetra a vagina da mamãe ou falar de espermatozóide, óvulo e relações sexuais para uma criança 2, 3 ou 4 anos. Vale o bom senso e a coerência. O essencial nessa fase é explicar as diferenças corporais naturais entre homem e mulher, para isso existem livros de sexualidade para crianças que trazem desenhos bem adequados. O limite exato é ir até onde a curiosidade e a compreensão da criança alcançam.

            Os pais precisam auxiliar na educação do filho, e o sexo também deve fazer parte do aprendizado. Nesse contexto, entra também a Escola, afinal o ensino não compreende apenas o lado cognitivo, mas também o emocional, comportamental e sexual. Em alguns países, como a Holanda, a obrigatoriedade de incluir o tema nas salas de aula existe há alguns anos. Falar de sexo com crianças a partir dos 7 anos de idade é visto como motivo preventivo. O objetivo é munir os estudantes de informação sobre as mudanças do próprio corpo, os riscos de uma gravidez indesejada e ensinar a identificar possíveis violências e abusos. No Brasil, não há determinações para que a educação sexual faça parte dos currículos escolares. Há, sim, recomendações. Nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), orienta-se a montagem das grades da educação básica em que o assunto seja tema transversal.

            Mas, por favor, vamos abolir de uma vez por todas a idéia de que o saber leva à precocidade sexual, pois as crianças têm estímulos de sobra em relação ao sexo e o desconhecimento, o não dito, também gera fantasias e angústias. Claro, que com as devidas precauções, o saber com segurança e naturalidade faz com que as crianças assimilem aquele conhecimento e sigam adiante, satisfeitas. À medida que crescerem, os temas deverão ser abordados de forma mais completa e profunda e irão aprendendo que uma boa sexualidade está ligada ao afeto e não a algo aleatório ou a uma busca de prazer imediato, pois as conseqüências podem ser desastrosas e não vale à pena arriscar.Deverão entender que sexo vai muito além do ato sexual e da reprodução. Abrange o que são as pessoas, seus sentimentos e relacionamentos. Implica ainda aprendizagem, reflexão, valores morais e escolhas.

            Tudo bem, entendo que esse hábito está incorporado às famílias e a mudança nem sempre é fácil. Para estes, sugiro alguns livros para que deixem de acreditar que falar de sexo com crianças é um verdadeiro “bicho-papão” !

- Como Falar de Sexo Com Seus Filhos, Logan Levkoff (ed. Gente)

- 500 Perguntas Sobre Sexo do Adolescente, Laura Muller (Ed. Objetiva)

- “Mamãe como eu nasci” - Marcos Ribeiro - Ed. Salamandra

- “De onde viemos”' - Peter Mayle Ed Nobel

 

Referências :

1http://port.pravda.ru/science/22-06-2009/27281-mscomsexual-0/ (acessado em 28.10.2011)

2http://www.useprudence.com.br/jairo/ (acessado em 28.10.2011)

http://www.portaltudoaqui.com.br/L_noticias.php?cod_not=1191 (acessado em 27.10.2011)



O conteúdo disponibilizado pelos colunistas não reflete necessariamente a opinião da ELO Internet

Christiane Lima

Christiane Lima

Assistente Social, Psicopedagoga e Especialista em Saúde da Família, formada pela Universidade Federal do Maranhão. Atualmente atuando na área de educação e há mais de 10 anos, trabalha na área de saúde junto a adolescentes e gestantes.

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Comentários sobre "Mãããe, como eu nasci ?!"

Sâmia Lourenço

Arquiteta - MA
De nada adianta tentar fugir do assunto sexo com os filhos, é um assunto importante e tem que tratado com responsabilidade e coerência no tempo certo.
 

Clara Pessoa

Secretária - MA
Nunca sabemos o momento de sentar e explicar aos nossos filhos como são as coisas, como elas acontecem. A ingenuidade pode gerar situações constrangedoras e até perigosas.
 

Silvia Cardoso

Dona de Casa - MA
É sempre um choque muito grande de gerações quando percebemos que nossos filhos começam a compreender as coisas e nos questionar, nunca estamos preparados para tais perguntas.
 

Marinalva Sales

Dona de Casa - MA
Pais e educadores deverão estar sempre juntos em assuntos tão importantes. Contudo, os pais têm que estar atentos ao que é dito nas escolas.
 

Patricio Mendes

Engenheiro - MA
O desconhecido realmente gera fantasias e angústias, portanto neste mundo de muita loucura vamos passar aos nossos filhos explicações suficientes para não cair no lugar errado, em mãos erradas.
 

Cyntia Arruda

Comerciária - MA
Quando o filho faz este tipo de pergunta sempre somos pegos de surpresa e ficamos gagos. É lógico que a verdade deverá ser dita, contudo de forma coerente.
 

Dalva Assunção

Bióloga - MA
A minha geração sempre sentiu vergonha de falar sobre assuntos deste tipo com seus filhos, até a menstruação sempre foi um grande tabú. Daí os grandes equívocos.
 

Dulce Coutinho

Educadora - MA
Sexo, drogas, são assuntos de suma importância na relação pais e filhos para que não aprendam de forma errada em outros lugares.
 

Juliano Pessoa

Educador - MA
Desde a mais tenra idade não devemos mentir aos nossos filhos, só devemos saber o momento certo para cada assunto.
 

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