"O Importante não é aceitar. É compartilhar" (Frase do filme Saturno em Oposição)
Para quem acredita em Astrologia, diz que Saturno é a energia que usamos para estruturação, para superar nossas limitações através do esforço sério e dedicado. Pra quem não acredita, mas acha bonito (como eu), também pouco importa... O que vale aqui é a licença de que preciso pra falar do filme que vi (primeiro sozinho), depois com uma turma pequena de amigos queridos, meus hóspedes, em São Paulo: Saturno em Oposição. Com licença, pode ser?!
Diz que o planeta mostra como superamos nossos medos e como vencemos as nossas dificuldades, indicando as responsabilidades, em que lugar existe uma cobrança, como o indivíduo se sente limitado. Rege o medo, a humildade, o correto, o sistema, os moralismos, a longevidade, as coisas já estabelecidas, o carma, as estruturas formadas, as regras arcaicas da sociedade, a disciplina, o limite, a realidade, o tempo, aquilo que devemos superar, o medo de vencer as próprias estruturas; é a consciência dos próprios limites. Saturno de sete em sete anos determina o tempo: com sete anos existe a troca de dentes; com 14 anos nascem os pelos (?); com 21 anos escolhe-se o amor (?!); com 28 anos aprendemos a dizer não (tem gente que ou nasce assim ou nem sabe o que é isso); com 35 anos acontece uma expansão (do corpo?), é o apogeu da personalidade (hhuummmm...) e com 42 anos a estruturação (deve ser por isso a minha falta de estrutura?!). Me falta um tempo, talvez.
Sendo assim, Saturno é quase tudo em nós com seus anéis lindos??!! Então, quem precisa do Sistema Solar todo?! Eu curto Marte e acho Vênus sexy. Mas a Terra ainda parece ser um lugar melhor, por enquanto. E é onde a maioria dos meus amigos vive e podem me ver...
E exatamente disso e “daquilo” que o filme italiano Saturno em Oposição, do diretor e roteirista turco Ferzan Ozpetek, direciona o espectador: quando a oposição acontece, a transformação é iminente. É a vida na Terra. Na pele. E no final, o que conta a trama nos conta: os amigos que temos. E não adianta: quem tem fortes relações de amizade, tem novela com capítulos e cenas a seguir todos os dias. É que o filme pode até parecer um novelão, mas é bem feito, bonito e muito, muito sensível, nos faz rir e soluçar. A trilha sonora é outro tempero italiano na medida certa. Até os silêncios ali nos contam sobre nós e os outros.
Em Terra Sonâmbula, romance do Mia Couto, entre muitas pérolas, o escritor africano nos dá uma máxima: “quem não tem amigos é que viaja sem bagagem”. E eu pago excesso, sempre. E excesso, aqui, não é quantidade; é peso. Densidade. “Amigos” pode ser até um; há os que valem por 10. Nada a ver com os números do Facebook. Quem pode ter 5 mil amigos?! Na vida virtual podemos quase tudo. Até ser o que não somos, morrer quando queremos e viver, quem sabe, pra sempre (junto com o plástico).
Na história do filme que falo, do mesmo diretor de O Primeiro que Disse (de 2010), há uma salada deliciosa dos tipos de amigos que convivem e repartem juntos champanhe e lágrimas: são bioseletivos, diferentes e parecidos; os tipos que pessoas modernas têm; falo de gente de verdade, do nosso tempo, que têm alma e muita carne viva sob seus espíritos, humanos: gays, heteros, bi, estrangeiros, drogados, briguentos, confusos, adoráveis, solitários, alegres, controlados, dominantes, amantes, amáveis, traídos, certinhos, exagerados... Mortais. Estranhamente ligados por transfusão de escolha: amor de amigo é cumplicidade na veia, e sangra. Esse é o pacto, a aliança. Sem garantias, nem promessas, mas com certezas de mágoas, perdões e recomeços de fazer inveja a qualquer anel de Saturno.
P.S.: Saturno em Oposição chegou atrasado ao Brasil (é de 2007); e é quase profético dizer que em São Luís nunca chegará. Esses atrasos da Ilha podem ter lá suas vantagens: talvez o fim do mundo nem chegue, junto com a curva do vento. Vá saber... Mas pra quem assistir ao filme, de um jeito ou de outro, pode ter a esperança óbvia, cruel e salvadora, também: nada é para sempre.
(Crônica publicada na Coluna AlexPalhano, domingo 28 de agosto de 2011, no jornal O Imparcial)
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