| Alta | 04:17h | 5,2m |
| Baixa | 10:45h | 1,1m |
| Alta | 16:39h | 5,1m |
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“Eu, pecador, absoluto em meu pecado, todo poderoso construtor dos meus desvarios, confesso-me a mim. Persigno-me, persigo-me, prossigo nesta impossível impassível jornada, trama indecifrável. Eu, pecador, crivado pelas setas e espinhos da dúvida, indivíduo no mundo, persigo meu sonho. E meu sonho intromete-se em minha vigília, soltando no ar os seres que povoam minha mente” (William Blake)
Sofro danos de memória recente. De uns tempos pra cá, às vezes, lembro só dá sombra da fecha que me acerta...
Outro dia eu li ou ouvi um pensamento alto, não sei ao certo, que caiu sobre minha cabeça feito um piano. Distraído, nunca mais esqueci. É o seguinte... Diz que há duas maneiras de parti: uma é ir embora; outra é enlouquecer. Há quem siga os dois caminhos: um pé na doideira de partir, outro na loucura de ficar. Então, se a gente prestar bem atenção não é o destino que conta; nunca contou, nem história alguma. Mas é o caminho. Ou os caminhos... E de fato, o único destino que existe, de que se tem notícia (pelo menos do lado de cá) é o de se infinitar (que quer dizer morrer, em poesia crua).
Entre os caminhos à nossa frente, ao lado, esquerda, direita, por trás, dentro e fora, e lá adiante, perto ou longe, o nosso destino é morrer; então, o que nos resta? Uma palavra: viver. Mais: tudo o que se sente. Clarice Lispector escreveu que viver é perigoso. Eu acho uma loucura. E enquanto William Blake dizia que “o caminho do excesso conduz ao Palácio da Sabedoria”; eu continuo achando a vida uma loucura. É Céu e Inferno.
É espelho e reflexo. Se a dos outros (a vida alheia) é sempre uma loucura pra nós, a nossa fatalmente é uma loucura para os outros. E os outros são os outros. Tem verdade mais absoluta que essa? Tem: você é você. Ainda assim, não nos conhecemos. E quando achamos que nos sabemos nus; mudamos. A vida é mesmo uma loucura. Melhor que seja. Pra quem?
A grama do vizinho ainda é mais verde? Ou é teu jardim (em jarro) que tem muito cimento? Se tudo tem dois lados, toda casa tem quintal; quem não tem quintal, tem terraço; quem não tem terraço, tem sacada, quem não tem... Tem janela. Todo mundo tem janela (que sejam os olhos!). Ou a gente olha a vida enxergando em volta da nossa própria casa, ou vamos ver pelo buraco da fechadura e ficar só na fresta da vida alheia, feito emoção de Big Brother, de payper view. E se os olhos são as janelas da alma, você vendeu a sua? E quem pagou?!
Não fui eu; tá na Bíblia, quem escreveu foi Marcos, o apóstolo; falou que foi Jesus quem disse: “...De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”. Acredite: já li a Bíblia várias vezes, dia e noite, mas, ainda à tardinha, onde o outro ler negro, eu leio branco. Às vezes somos todos daltônicos, monocromáticos ou coloridos. Uns sim, uns não, outros nem tanto. E ainda sobram os “talvez”. Mas, cá pra nós, toda alma sem a carne é morta.
É; a vida é uma loucura. Quer ver?! Desliga a televisão. Feche o jornal. E vá dar uma volta, em si. Prove; morda a vida. Vou repetir: mordendo a fruta, o homem enfim compreende. É que existem pessoas que acham que estão de barriga cheia só porque leram atentamente o cardápio.
P.S.: Eu tô nessa do começo da nossa conversa: na loucura de partir e na doideira de ficar (com você), caro leitor. Findo como na vinda; William Blake de novo. E faço das palavras dele minha loucura feliz: “Eu, pecador, absoluto em meu pecado, todo poderoso construtor dos meus desvarios, confesso-me a mim. E jogado sobre a poltrona, nestas tardes monótonas e quentes, pressinto e antecipo a queda da próxima mosca, e o ranger de dentes das peras, deixadas solitárias na fruteira”.
(Crônica publicada na Coluna AlexPalhano, domingo, 14 de agosto de 2011, no jornal O Imparcial)
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