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O BARMAN, O BÊBADO, O EQUILIBISTRA E O VENTO


(Crônica da Coluna AlexPalhano, publicada domingo, 13 de fevereiro de 2011, na revista Tudo!, do jornal O Imparcial)

Você não sabe o que é. Tem sonhado a vida toda. Seus olhos têm estado fechados a maior parte do tempo. O que quer que tenha feito, retorna em forma de escárnios. Os escárnios não o representam. Por baixo deles e dentro deles vejo você à espreita”. Watt Whitman

 

O BARMAN, O BÊBADO, O EQUILIBISTRA E O VENTO

A conversa parecia de mesa de bar. Mas não era. No lugar da mesa e de gente sentada em volta de um quadrado, era um balcão longo, um sujeito só e um barman desavisado, atento e longe, e duplamente solitário, também. Parecia um divã, onde ali tudo ficava e se enterrava pra ressuscitar a qualquer momento, quem sabe, de novo... De velho.

E eu?! Ouvindo, sem querer, com minhas doses duplas de uísque. A cada palavra lançada do sujeito, um gole meu descia goela abaixo pra eu ficar em silêncio. E, contra a lei da gravidade, as doses não caiam: subiam direto à minha mente e se misturavam aos meus pensamentos. Era eu quem caia em mim, como sempre.

Lá da ponta do bar, o sujeito bonito e triste, com ar de sabedoria absoluta e imatura, murmurava para si e para quem ouvido tivesse: “Se todos saírem por aí criando as próprias regras, como saber qual a verdadeira? Não há nada em que se apoiar”. E ficou lá: ele, a bebida, o cigarro que não podia fumar e sua verdade de pedra, como a solidão quando quer fazer seus alicerces dentro da gente.

Tomei meu uísque de vez; só e num gole.  Pedi outra dose. Já tinha criado meu muro, minha muralha da China enormeeeee, como se não fosse me rachar ao meio, ou pular fácil, como sempre faço, vez ou outra, num salto lançado sob o chão de ilusão e cimento... Quem sabe? Estava só me protegendo nem sei de quê.

O barman reagiu do nada e com tudo. Como se não houvesse plateia, e, sem palco, entrou em cena. Pediu licença pra se mostrar educado, ou por pura prática, talvez. Queria falar algo. Levantei a cabeça. O outro, do lado de lá, ou do outro lado (como queiram), disse: “fale, por favor”.

De repente, o barman parecia mais alto e não estava tão sozinho quanto parecia se sentir antes, ou como o havia sentido, claro. E começou: “Uma noite dividi minha pele de cigarra, devorei suas folhas sem conhecer venenos, nenhuma regra de nutrição. Naquela cegueira dissimulada um desejo finalmente verdadeiro”. 

E pronto. Calou-se e foi preparar outro dry martine.

Dito isso, fiquei tonto. Logo eu que havia acabado de começar (adoro esse trocadilho maldito) a beber e devorar pensamentos alheios?! Tive vontade de saber mais, ouvir mais. Desejei aquilo escrito num guardanapo de papel. Mas o outro lado se antecipou: “De quem é esse poema? De quem é isso?” E, mais uma vez sozinho, de volta a si, o barman respondeu: “É meu. Fiz numa noite em que estava do seu mesmo lado do balcão”.  E entregou o dry, impecável.

É, caro leitor, talvez  o que seja verdade esteja à nossa frente e nos afastamos sem saber que está lá. Uma vez que achamos que temos tudo resolvido, o que resta?! O que nos resta? “O animal satisfeito dorme”, disse alguém que não lembro agora. 

Nessas minhas viagens por novos e velhos lugares, pessoas que frequento, livros que marco e rasgo páginas feito minhas e filmes que já filmei sem saber, sempre me surpreendo com algo que realmente me faz sentir vivo. Às vezes, nem gosto do que sinto. A intenção nem é gostar ou não, é reagir.  

Foi Sócrates, também, que me pôs umas ideias, entre tantas que não me saem. Ele reconheceu que todo filósofo e religião, na história do mundo, de Platão a Aristóteles, dos  epicuristas aos estoicos, dos judeus aos cristãos, aos budistas o que todos haviam observado: que o equilíbrio necessário para uma vida feliz é ilusório.

E quando, em nosso maravilhoso e errôneo jeito humano, achamos que conseguimos, estamos fingindo ser divindades e vamos nos dar mal. Como Ícaro em chamas, caindo no mar.

Então, pense nisso neste domingo; quando achar que está no topo do mundo, lembre-se:  ainda andamos todos em cordas bambas. E por mais equilibristas que somos, por mais treinados que sejamos, há sempre um vento que sopra e nos atinge em cheio. Ainda bem!

Pra ver mais fotos acesse: www.alexpalhano.com.br
e me siga no Twitter: @AlexPalhano



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ALEX Palhano

ALEX Palhano

Jornalista, produtor e cool hunter. Alex Palhano escreve sobre noite, moda, música, cinema e personalidades. Edita duas colunas no jornal O Imparcial (sextas e domingos) e tem um badalado site de noticias (www.alexpalhano.com). Hoje vive em São Paulo. Faz festas, ataca como DJ e produz eventos culturais para empresas e instituições.


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